A Aliança pela Infância e UMAPAZ realizam o 54º Fórum

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O 54º Fórum da Aliança pela Infância e UMAPAZ já tem data marcada!

O 54º Fórum da Aliança pela Infância e UMAPAZ já tem data marcada!

O Brincar

Autoria: Miriam Altman e Muna Maalouli

A atividade lúdica é para a criança um dos meios principais de expressão que possibilita a investigação e a aprendizagem sobre as pessoas e as coisas do mundo.

Ao favorecer o desenvolvimento dos aspectos cognitivos assim como a simbolização do mundo interior de pensamentos e afetos, através da imaginação, a criança pode dar vazão a seus desejos, conflitos e vivencias mais íntimas.

Recorreremos aos pressupostos teóricos da psicanálise para aprofundar a reflexão deste tema. Ao observarmos o bebe ao nascer podemos perceber que ele é tomado por estímulos externos e internos que em alguns momentos causam-lhe sensações prazerosas e de satisfação e em outros desprazer e desconforto.

As reações iniciais do bebe a estes estímulos sensíveis são corporais e é nesta busca de descarga e satisfação que vai ocorrendo a interação com a mãe ou um outro que a represente e do qual depende não apenas para a sua sobrevivência biológica como também para a formação e construção da sua vida psíquica e emocional.

Segundo a teoria do psicanalista Bion, rêverie, seria o nome dado a essa fundamental capacidade materna para a fantasia ou seja a capacidade deste outro de ser o continente para a criança neste caos sucessivo e desordenado de estímulos que vivencia ao acolher, digerir, nomear e transformar essas vivências em algo de natureza psíquica.

Ao significar o que é fome, sede, dor, alegria, raiva, tristeza ou seja a multiplicidade das vivencias emocionais que experiência, vai se possibilitando á criança, a representação e a simbolização do mundo de coisas e de afetos compartilhado pelos humanos através da linguagem verbal, gestual, mímica, corporal, etc.

Dessa forma a formação da memória, do pensamento e da simbolização é inerente ao vínculo e às experiências emocionais que a criança estabelece com a mãe e os outros.

No início do seu desenvolvimento emocional, a forma pela qual a criança se livra das vivencias desagradáveis que não consegue conter, é pela descarga motora e através de atividades corporais como mordida, chute, ou mesmo por uma necessidade de colo e de olhar exclusivos e intensos.

A possibilidade do adulto dar sentido às ações pré- verbais da criança é que vai permitir que ela possa substituir gradativamente a ação pelo pensamento e recorrer ao uso da linguagem verbal e da simbolização como formas mais elaboradas de comunicação.

Essa breve exposição sobre o desenvolvimento emocional foi feita para podermos compreender a importância da atividade lúdica neste contexto, já que esta se caracteriza pela plasticidade psíquica através do uso da fantasia e da criatividade.

A mãe por exemplo, ao transformar a colher que dá o alimento á criança em aviãozinho ou ao contar estórias, brincar de esconde-esconde com os objetos, cantarolar, fazer mímica, etc, ajuda a criança a perceber os vários sentidos expressivos e a flexibilidade da comunicação humana.

Desta forma insere-se a possibilidade de sair de um mundo concreto, rígido e estático de coisas e objetos e a penetrar em um mundo mutável, fluído e rico de sentidos, que é representado pela mente.

Ao observarmos crianças ou mesmo adultos com um pensamento tão concreto aonde as coisas se apresentam sempre de forma única , rígida e empobrecida nos damos conta do quanto não puderam contar com alguém que pudesse tê-los ajudado a ultrapassar a percepção imediata do mundo para uma vivencia psíquica com maior mobilidade e criatividade.

É também, através da atividade lúdica e artística que a criança pode ir expressando através da fantasia os seus desejos, elaborar os seus conflitos e viver o faz-de-conta como suporte para a realidade.

Não é à toa que as crianças invertem os papéis nas brincadeiras e podem ser papai, mamãe, professor. Já que na vida real precisam depender e se submeter a vontade dos adultos é através da brincadeira que podem ser este adulto que imaginam tão poderoso e maravilhoso e desta forma podem ir elaborando os seus sentimentos de submissão, autoridade, necessidade de autonomia e independência

Estas brincadeiras expressam conteúdos inconscientes, não cabendo ao educador interpretá-las mas sim permitir a sua expressão. Diferente da ludoterapia que tem como objetivo principal a compreensão dos movimentos psíquicos amorosos e agressivos com suas expressões de angústia e conflito, a finalidade da atividade lúdica na escola é o desenvolvimento da afetividade através da simbolização, criatividade e socialização.

Os conteúdos mentais que parecem desconexos e absurdos para os aspectos racionais da mente, podem ter uma riqueza de sentidos nas vivencias emocionais embora se apresentem de forma ilógica, fantástica, múltipla e indireta.

A razão e a afetividade percorrem caminhos diferentes em suas formas de representação, e é a possibilidade de penetrar paralelamente nessas diferentes apreensões do homem, das coisas e do mundo que podem permitir à criança a integração no seu desenvolvimento cognitivo e emocional.

É desta forma que a criança poderá desenvolver o pensamento para apreender os fundamentos da matemática, da ciência e da formação dos conceitos lógicos e universais, mas também de se inserir no fascinante mundo da imaginação, das multiplicidades de sentidos, das diferenças, do devir e do movimento para melhor lidar com as vicissitudes da vida mental. Gostaríamos também de poder expor determinadas brincadeiras de acordo com as fases do desenvolvimento emocional da criança, e assinalar a importância dos educadores levarem em conta a dinâmica psíquica e os conteúdos mentais envolvidos.

Por exemplo, na fase onde há o predomínio da oralidade como forma de apreensão do mundo, as brincadeiras de engolir, morder, contar estórias sobre o lobo mau e outras podem ser muito significativas.

Na seqüência, em relação às vivencias da analidade, as brincadeiras com barro, argila, areia, massinha, geleca e outros materiais afins, possibilitam uma proximidade simbólica com as fezes, através da transformando da meleca e da matéria sem forma em um produto criativo, estético e de valor.

Na fase edípica as crianças brincam muito de imitar os pais, usando as suas roupas, maquiagens e sapatos como forma de identificarem-se e de serem os super heróis, príncipes e princesas vencendo os inimigos e rivais.

A partir de uma maior compreensão do mundo mental, pode-se inferir que no início do desenvolvimento a criança não tem delimitado as vivencias que vem dela e o que decorre do mundo externo.

As experiências emocionais se apresentam de forma cindida, instantânea e parcial não havendo integração entre elas, portanto a criança ainda não pode fazer uma integração da mesma mãe que ora lhe gratifica e ora lhe frustra.

As vivencias boas são idealizadas, queridas e desejadas e as frustrantes são vivenciadas como más estando fora e causadas pelos outros. A capacidade de integração presume a possibilidade de suportar a frustração e de se sentir responsável pelos seus atos e sentimentos e portanto exige trabalho ao psiquismo. A criança necessita de uma mãe e de um ambiente que possam ajudá-la nesta difícil tarefa.

Neste sentido os contos de fadas e as estórias causam tanto fascínio nas crianças por se utilizarem de uma comunicação muito próxima das suas vivencias, ajudando-as na sua elaboração.

A divisão entre bom e mau, fada e bruxa, amor e ódio, expressos através de vivencias corporais como morder, fazer pedacinhos, devorar, envenenar, etc, simbolizam as formas iniciais de relações que a criança estabelece.

As vivencias de onipotência, magia, idealização, perseguição, dominação do terror e exaltação dos aspectos construtivos e reparadores, características das estórias possibilitam à criança uma proximidade com sua vida afetiva ajudando-a a sentir-se compreendida e acolhida.

Por outro lado, a linguagem simbólica e metafórica usada nos contos faz com que se sinta distante e não ameaçada pelos conteúdos descritos, o que possibilita o encantamento e o pedido de repetição do conto pelo prazer e fascínio que esta lhe desperta.

Deste modo, ao transcorrer sobre estas questões esperamos estar contribuindo para um maior esclarecimento da importância da atividade lúdica no desenvolvimento infantil.

Curso Infância Vivenciada

O Curso Infância Vivenciada está com as inscrições abertas! Imagem

O curso será dividido em módulo temáticos: Desenvolvimento infantil, cuidados, ritmo, brincar, trabalhos manuais, atividades artísticas, relacionamento humano .Com emissão de certificado pela Aliança pela Infância.

Acesse: http://us6.campaign-archive1.com/?u=27b675f4b321eb5a311babab4&id=e51b8262c2

Um Plano Nacional pela Primeira Infância

A Rede Nacional Primeira Infância – RNPI apresenta um vídeo animação sobre a importância da Primeira Infância e sobre um Plano Nacional pela Primeira Infância e os Planos Municipais.

Juquiá realiza a Semana do Brincar

Reunindo mais de 300 crianças, as escolas municipais de Juquiá, SP, realizaram a Semana do Brincar reunindo pais e alunos em jogos e brincadeiras. O envolvimento foi de todos!

Recebemos um relato emocionante de uma das educadoras da cidade:

“Todas essas  atividades  demonstraram  a importância  do  Brincar  na vida  das pessoas, e partiram  do  ponto  de vista  que o  ser  humano  pode ser  melhor,  quando  a alegria faz parte de suas vidas. Os  adultos presentes,  elogiaram  e  puderam  a notar  a importância de participar  junto  com os filhos,  verificaram a felicidade estampada  no  rosto  das crianças,  e sentiram-se gratos por este momento,  pois todos passaram  uma manhã diferente com  seus filhos e remeteram-se a sua  própria infância,pois  é sabido que durante a brincadeira as crianças iniciam a vivência do respeito  aos companheiros,  aliam competição  e cooperação,  desafios são  colocados a elas  que buscam  superar a si próprios, pelo  prazer  proporcionado  pelas atividades lúdicas. Durante o  brincar as crianças  amadurecem algumas competências para a vida coletiva,  através da interação   e da utilização e  experiências e papéis sociais.”

A Aliança pela Infância agradece a parceria da Departamento Municipal de Educação de Juquiá.

Seminário Brincadeira é coisa séria reúne mais de 100 educadores em Resende

 

 

A Associação Educacional Dom Bosco realizou no dia 29 de Junho, em Resende, o Seminário Pedagógico “Brincadeira é coisa Séria”.  A professora Valdete Asevedo  palestrou sobre a Importância do Brincar e também houve oficinas brincantes.

 

Prabéns a todos envolvidos. Imagem

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Seminário Pedagógico – Brincar é coisa séria!

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A Ação Virtu@l pelo Brincar de 2013 foi um sucesso! 91 posts em 41 blogs.

A Ação Virtu@l pelo Brincar de 2013 foi um sucesso! 91 posts em 41 blogs.

A plenitude da infância – {por Amanda Hipólito para a Blogagem Coletiva 2013}

Diferente do que muita gente pensa, quando meus pais se separaram, eu com sete anos de idade, não sofri pela separação deles, muito pelo contrário, senti um alívio, pois ficamos todos livres daquele ambiente pesado de brigas e mais brigas.

 

O sofrimento foi ter que me mudar da rua onde morávamos, pois lá, mais do que em casa, a infância era vivida plenamente! A rua era das crianças, por isso a chamávamos de “Nossa Rua”, durante muitos anos eu sofri com esta perda, foi um pouco como a perda da infância… Sabe porque? Deixa eu explicar melhor: lá, na “Nossa Rua”, as crianças ficavam soltas e livres, sem a constante presença recriminadora dos adultos, naquela época eu não sabia porque, mas os adultos estavam sempre em suas casas ou trabalhos, mas raramente na rua, esta era unicamente das crianças, e ali vivíamos num mundo próprio.

 

Localizada em Santa Teresa, um bairro conhecidamente bucólico por suas ruas de paralelepípedo, casas antigas e bonde circulando nos trilhos; a “Nossa Rua”, uma rua sem saída, e com isso sem transito de carros, naquela época tinha em boa parte de sua extensão um “morro de terra” que separava as duas calçadas em desnível, e por isso até mesmo estacionar não era possível em boa parte dela. Não haviam prédios de apartamentos, somente casas simples com quintal, jardim ou uma boa varanda, mas mesmo assim ficávamos muito mais na rua do que em nossas casas. Das famílias que moravam nesta rua, 90 % tinham pelo menos uma criança, duas ou três, o que tornava nosso social na rua muito rico, éramos muitas crianças de diferentes idades, meninos e meninas, e também com diferentes níveis sócio-culturais, mas na Nossa Rua todas as crianças brincavam juntas.

 

Brincávamos de pique-pega, pique-esconde, pique-alto, pique-bandeira, pique-baleia… a infância sadia tem pique pra tudo! Brincávamos de campeonato de corrida, de quem pula mais alto, de cuspe à distância, de melhor dupla teatral, ou de melhor dupla de lambada… Telefone-sem-fio, mês, adedanha, adoleta, gato-mia, mímica… Não cansávamos de subir em árvores, de escorregar no morro sentados no papelão (e ficar com o bumbum todo sujo de terra), de jogar queimada, de tomar banho de chuva e pular em poças de lama, de ensaiar espetáculos de dança em cima da caminhonete, de pular corda, pular elástico, amarelinha, soltar pipa, jogar bolinha de gude, comer goiaba no pé da vizinha, comprar sacolé na outra, fazer o enterro da cigarra que morreu depois de a encontrarmos caída perdendo aos poucos sua voz rouca… Ficávamos horas, às vezes dias, ensaiando peças teatrais que depois convocávamos os pais pra assistirem pagando ingresso. E à noite era maravilhoso contar e ouvir piadas, contar e ouvir histórias mal assombradas, brincar de salada-mista…

 

Tinha o namoro ingênuo, de mãos dadas, e bochechas queimando de vergonha; tinha o namoro tímido, que acontecia escondido com apenas um estalinho, e tamanho era o palpitar e rubor causado por esta façanha, que cada qual corria pra lados opostos em seguida do beijo; tinha o namoro escondido, em que a maior aventura, era justamente o segredo em si, e encontrar formas de como manter este segredo em disfarce, mesmo que nada acontecesse entre eles, uma espécie de detetive às avessas; tinha o namoro que não existia mas que todas as crianças da rua vibravam juntos querendo que tal casal se namorasse; tinham os amores platônicos, esses tinham aos montes… Namorar era apenas enfrentar o encontro de sentimentos entre um menino e uma menina, a primeira experiência de amor entre esses opostos.

 

Haviam algumas rixas temporárias, mais no geral havia uma união indescritível! Tínhamos uma alma de grupo, o mesmo time de futebol, a mesma escola de samba e até mesmo o mesmo partido político, mesmo que alguns não seguissem o que seus pais eram. Por exemplo, todos os pais não torciam para o mesmo time de futebol, mas sempre tinha aquele pai que era o mais fanático de todos por futebol, e isso dava uma certeza pras crianças de que o seu time devia ser o melhor. Pras questões políticas também tinha todo tipo de pais, mas nesse caso, os mais politizados, conscientes e revoltados com a realidade atual se destacavam pra nós crianças, e mesmo sem entender nada de política éramos todas de esquerda, e chegamos a fazer cartazes e sair em passeata mirim pelas ruas do bairro em época de eleição, sem a menor interferência dos adultos, criamos tudo sozinhos.

 

Desta união também nunca vou me esquecer de uma vez que perdi minha irmã que tinha 2 anos (e eu 6) e estava sob meus cuidados, comecei a chorar copiosamente com medo de voltar pra casa sem ela, com medo da reação do meu pai, e todas as crianças se revezaram entre me consolar e procurar a minha irmãzinha pelas casas vizinhas, antes de eu voltar à minha casa. Até que as crianças encontram ela na última casa visitada da rua. A mãe do Jorginho havia passado enquanto brincávamos de pique-esconde e não conseguiu se segurar com tamanha fofura da pequena, convidou-a pra ir em sua casa comer alguma besteirinha qualquer, mas como estávamos todos ocupados com o pique nem percebemos. Todos vibramos juntos pelo resgate, pelo reencontro, e aquilo aumentou em grandes proporções o amor fraterno entre nós, crianças da rua. A partir dali “minha” irmã passou a ser a “nossa” irmãzinha caçula, todas as crianças agora eram uma só família de irmãos, quando estávamos na rua.

 

Ah, e como era maravilhoso poder andar em bando pelas ruas do bairro! Principalmente em dia de Cosme e Damião, era certo que faltaríamos a escola, na época isso ainda não era proibido pela maioria dos pais, certamente as escolas estariam esvaziadas neste dia… pois era uma espécie de sacramento da infância! Passávamos o dia inteiro enfrentando filas e mais filas, de uma casa à outra pra conseguir o bendito saquinho de doces, um exercício de persistência e de força de vontade, pra conseguir o que queríamos, e depois que estávamos com dois sacos de supermercado cheios de saquinhos de doce, íamos em casa, deixávamos os sacos e voltávamos para a peregrinação em busca dos doces. Depois tínhamos doce pra mais de um mês, mas logo enjoávamos e por um bom tempo não queríamos ver doce pela frente.

 

Lembro-me também de uma vez que apareceu uma coruja com a asa machucada no quintal de minha casa, meu pai a trouxe pra dentro de casa, pra cuidarmos dela, fez um puleiro pra ela, e durante alguns dias tivemos que ficar com portas e janelas fechadas, luzes apagadas e falar cochichando pra não assustá-la. Isso virou a grande sensação da rua, e pelo menos uma vez ao dia tinha visitação guiada à coruja em minha casa. Depois que ela ficou curada nós a levamos pra rua e a soltamos. Foi magnífico ver esse vôo de liberdade e vibrar todas as crianças juntas! Mas mais magnífico ainda, foi quando num domingo em que eu estava tomando um café da manhã tardio de com meus pais, escutei o grito de várias crianças me chamando na Nossa Rua : – Amandaaaaa, vem ver quem venho te visitaaaar!!! – E quando apareci na varanda, lá estava minha coruja num galho da àrvore que ficava na Nossa Rua enfrente a minha casa. Era inacreditável, mas todos tínhamos certeza: Ela viera agradecer pelos cuidados e matar a saudade!

 

Tínhamos televisão, acho que todas as casas tinham, mas isso não competia com a vida pulsante que corria lá fora, na Nossa Rua. E mesmo em dias chuvosos a farra era revezada entre as casas das crianças, onde brincávamos de boneca, de comidinha, de cabaninha, amarrando lençóis por toda a casa e inventando viagens fantásticas ao mundo da imaginação… ou então dáva-se vazão às artes, desenhando, pintando, dançando e cantando ao som de saltimbancos em discos de vinil, costurando roupinhas de boneca, ou escrevendo cartas de amor que eram colocadas na caixa de correios do vizinho pelo carteiro, que fazia isso pra gente sem cobrar nada, pra que não fosse descoberta a autora anônima… Nessa infância não me lembro de ter cruzado com o tédio, não tínhamos muito tempo pra ele, mas quando ele dava algum sinal, sabía-se: algo novo estava para nascer… era latente… e uma nova invenção era criada a partir de nossa fértil imaginação!

 

Já em dias de calor escaldante, banho de mangueira era a nossa alegria maior, parecia que virávamos verdadeiros curumins no encontro com as águas, pois muitas vezes acontecia com todo mundo pelado, o que nos permitia ver os corpos de forma natural, e ser crianças nuas de pudor!

 

Lembro-me do jardim da Dona Idazina, era o mais lindo jardim da Nossa Rua, um verdadeiro jardim encantado, que ao atravessar o seu portal de entrada sentíamos estarmos adentrando no mundo onírico dos contos de fadas. Era um jardim muito bem cuidado, com plantas enormes, entre as quais tinha uns caminhos que, pra nós crianças, eram quase labirínticos. Lá tinha uma pedra enorme com formato de um rosto, que pra conseguir levanta-lá era preciso duas crianças. Fizemos um buraco na terra e usávamos a pedra-rosto pra vedar este buraco, e nele guardávamos moedas e tesouros, tínhamos a impressão de que a pedra era nossa guardiã encantada, e sempre antes de movê-la pedíamos licença. Também neste mesmo jardim vivia uma árvore enorme e velha, com a qual conversávamos e revelávamos os segredos mais secretos de duas melhores amigas. Muitos seres elementares se revelavam pra gente quando estávamos atentos às sutilezas do vento uivando nas folhas, do arco-íris formado na luz da chuva fina, dos galhos caídos na terra em forma abrigo pra seres minúsculos, ou do raio de sol atravessando uma fina fresta por entre folhas e teias de aranha… Deste jardim surgiam histórias que acreditávamos, e outras que inventávamos com tanto encantamento pras crianças mais novas, que chegávamos a acreditar ser real o que tínhamos acabado de inventar.

 

Durante estes sete anos vivi plenamente minha primeira infância! Muitas vezes ralei o joelho, ou perdi a unha por correr desembestada; em outras fiquem sem voz de tanto gritar ao léu num exercício de eco; em muitas outras vezes gripei, por não sentir o frio chegar no corre-corre dos piques, mesmo a pedidos da mãe que acabava desistindo de tanto insistir; peguei catapora, caxumba, rubéola, coqueluche, porque quem conseguiria deixar de visitar o amigo doente? Mas a saúde que desenvolvi nestes anos de minha infância vivida com plenitude, foi uma saúde que vai pra além da saúde física, ela abrange a saúde motora, a saúde sensória, a saúde emocional, a saúde social, a saúde vital, uma saúde que me plasmou a vontade de viver com plenitude as simplicidades da vida, que se encontram nas riquezas da natureza ao nosso redor, e nos encontros espirituais/humanos do dia a dia. É uma saúde que me permite atravessar e superar momentos de grande dor, me fazendo enxergar que há uma sabedoria cósmica até mesmo nestes momentos mais duros, como me foram a morte de minha mãe, de meu pai e de minha irmã.

 

Quando eu me mudei da Nossa Rua parecia que eu havia deixado uma terra encantada, e passei, os sete anos seguintes, alimentando o sonho de que um dia eu voltaria a morar lá, mas com a chegada da adolescência caiu a ficha de que não seria mais possível resgatar este tempo encantado, pois mesmo que eu voltasse pra Nossa Rua, eu não seria mais criança pra aproveitar das delícias da infância.

 

Mesmo assim, desde que me mudei de lá, sempre me entristeci com as infâncias que outras crianças perdiam dentro de seus apartamentos, sentadas em frente a tv, apertando botões de vídeo game, ou em horas ininterruptas de informação em escolas puxadas intelectualmente e conteudistas.

 

Um belo dia me encontrei com a pedagogia waldorf, uma pedagogia que trabalha pelo resgate, respeito e preservação da infâcia sadia e plena! E senti que havia encontrado minha missão nesta vida, através dela eu podia trabalhar para que mais e mais crianças possam ter uma verdadeira infância, rica de brincadeiras e experiências motoras, sensórias, emocionais, sociais, imaginativas, criativas… e com esta pedagogia descobri que essas experiências são a base para o desenvolvimento do pensar livre e autônomo.

 

Do encontro com a Pedagogia Waldorf descobri muitas outras coisas, e uma delas foi que não estou sozinha neste sonho e nesta missão, mas existe todo um movimento chamado Aliança pela Infância, um movimento mundial, em prol da infância plena vivida através do brincar, para que a saúde humana integral seja tecida desde sua base formadora, a infância.

 

 

*Amanda Hipólito é mãe e educadora Waldorf.

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